Reforma tributária: o desafio de operar dois sistemas

Equipe empresarial analisando a transição entre dois sistemas tributários da reforma

A maior preocupação das empresas brasileiras com a Reforma Tributária do Consumo não está no destino, e sim no caminho. Segundo a pesquisa Tax do Amanhã 2026, da Deloitte, 60% das companhias temem ter de gerir dois sistemas tributários ao mesmo tempo durante o longo período de transição. O número recuou levemente em relação aos 66% do levantamento anterior, mas segue como a principal inquietação de quem precisa se adaptar ao novo modelo sem parar de operar no antigo.

Por que a transição preocupa tanto

A reforma não acontece de uma só vez. O cronograma se estende de 2026 a 2033, período em que os tributos atuais sobre o consumo vão sendo gradualmente substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). Durante esses anos, as empresas precisam apurar, registrar e recolher tributos dos dois regimes simultaneamente, manter sistemas paralelos e treinar equipes para conviver com duas lógicas fiscais ao mesmo tempo.

Essa duplicidade aumenta o custo de conformidade no curto prazo, justamente o oposto da simplificação prometida pela reforma no longo prazo. A pesquisa da Deloitte, que ouviu 148 empresas, mostra que a expectativa de simplificação imediata enfraqueceu. As companhias seguem acreditando que o novo sistema vai melhorar a transparência fiscal e reduzir obrigações acessórias no futuro, mas reconhecem que o período de convivência entre os modelos será o mais complexo de administrar.

O ano de 2026 tem um papel especialmente sensível nesse processo. É a fase de teste do novo modelo, em que as empresas já precisam destacar o IBS e a CBS nos documentos fiscais, mesmo sem recolhimento efetivo na maior parte dos casos. Esse período serve para que tanto os contribuintes quanto os Fiscos validem sistemas, ajustem leiautes e identifiquem inconsistências antes que a cobrança avance de fato. Quem encarar essa etapa como um ensaio sério, e não como mera formalidade, chegará às fases seguintes com muito menos sobressaltos.

As demais preocupações das empresas

Além da gestão dos dois sistemas, o levantamento revelou outras frentes de atenção:

  • Negociações comerciais: 39% das empresas citaram discussões de preços e margens com fornecedores, e 33% apontaram o mesmo desafio com clientes, diante da mudança na forma de tributar;
  • Prazo de implementação: 31% se preocupam com o tempo necessário para estruturar processos, sistemas e equipes;
  • Impacto na carga: 51% projetam aumento da carga tributária com o novo modelo, enquanto 19% esperam efeito neutro.

O perfil das respondentes mostra que o tema mobiliza grandes companhias: 47% tiveram receita superior a R$ 2,5 bilhões em 2025, com destaque para os setores de agronegócio e alimentos e bebidas (22%), serviços (20%) e comércio (13%).

As empresas já estão se movimentando

A boa notícia é que a maioria não está parada. Segundo a pesquisa, 90% das empresas já concluíram estudos de impacto sobre o consumo e sobre suas estratégias de preço. Além disso, 84% deliberaram sobre distribuição de lucros e dividendos ainda em 2025, antecipando decisões diante das mudanças. Esse movimento mostra que a transição deixou de ser um tema futuro e passou a integrar o planejamento financeiro e estratégico das companhias.

Como se preparar para a convivência dos sistemas

A experiência das empresas mais avançadas indica que a adaptação bem-sucedida começa cedo e envolve várias áreas, não apenas a fiscal. Entre as medidas mais relevantes estão:

  • Mapear todas as operações e simular o impacto do IBS e da CBS sobre preços, margens e fluxo de caixa;
  • Adequar sistemas e processos para apurar os dois regimes em paralelo, com controles que evitem erros e retrabalho;
  • Revisar contratos e políticas comerciais, antecipando as negociações de preço com clientes e fornecedores;
  • Capacitar as equipes de fiscal, contábil, comercial e tecnologia para a nova realidade;
  • Acompanhar de perto a regulamentação, que segue sendo detalhada e pode alterar parâmetros da apuração.

Transição é também oportunidade

Embora o período de convivência entre os sistemas seja desafiador, ele oferece uma janela para revisar processos, modernizar a gestão fiscal e ganhar eficiência. As empresas que tratarem a transição como projeto estratégico, e não apenas como obrigação, tendem a sair na frente quando o novo modelo estiver plenamente vigente.

Vale destacar que a transição não é responsabilidade exclusiva do departamento fiscal. Ela envolve a área comercial, que renegocia preços e contratos; a tecnologia, que adapta sistemas; o financeiro, que projeta o impacto no fluxo de caixa; e a alta gestão, que define a estratégia. Empresas que conseguem integrar essas áreas em torno de um plano único de adaptação reduzem ruídos, evitam decisões contraditórias e ganham velocidade. A falta dessa coordenação, ao contrário, costuma ser a maior fonte de erros e custos extras no período de convivência entre os modelos.

É exatamente esse o trabalho que o Grupo BRA 360 desenvolve com seus clientes: traduzir a complexidade da transição em um plano claro, com simulações de impacto, adequação de sistemas e acompanhamento da regulamentação. Operar dois sistemas ao mesmo tempo é inevitável nos próximos anos, mas fazê-lo com método transforma um risco de conformidade em vantagem competitiva.

Perguntas frequentes

Por que 60% das empresas temem a coexistência de dois sistemas tributários durante a transição da Reforma?

Segundo a pesquisa Tax do Amanhã 2026 da Deloitte, ouvindo 148 empresas, o principal receio é ter de apurar, registrar e recolher tributos dos dois regimes simultaneamente, manter sistemas paralelos e treinar equipes para duas lógicas fiscais ao mesmo tempo. Esse duplo esforço aumenta o custo de conformidade no curto prazo, o oposto da simplificação prometida.

Qual é o cronograma de transição entre o sistema atual e o IBS e CBS?

O cronograma da Reforma Tributária se estende de 2026 a 2033, período em que os tributos atuais sobre o consumo vão sendo gradualmente substituídos pelo IBS e pela CBS. Em 2026, as empresas já precisam destacar IBS e CBS nos documentos fiscais mesmo sem recolhimento efetivo na maior parte dos casos, numa fase de testes dos sistemas.

Quais são as principais preocupações das empresas além da gestão dos dois sistemas?

A pesquisa da Deloitte apontou: negociações de preços e margens com fornecedores (39%) e com clientes (33%), prazo de implementação de processos e sistemas (31%) e impacto na carga tributária, sendo que 51% projetam aumento da carga com o novo modelo e 19% esperam efeito neutro.

Como as empresas estão se antecipando à Reforma Tributária?

Segundo a pesquisa da Deloitte, 90% das empresas já concluíram estudos de impacto sobre o consumo e suas estratégias de preço, e 84% deliberaram sobre distribuição de lucros e dividendos em 2025, antecipando decisões diante das mudanças. Isso mostra que a transição deixou de ser tema futuro e passou a integrar o planejamento estratégico das companhias.

Quais medidas as empresas mais avançadas estão adotando para a convivência dos dois sistemas?

As medidas mais relevantes incluem mapear operações e simular o impacto de IBS e CBS sobre preços, margens e fluxo de caixa; adequar sistemas para apurar os dois regimes em paralelo; revisar contratos e políticas comerciais antecipando negociações com clientes e fornecedores; capacitar equipes de fiscal, contábil, comercial e tecnologia; e acompanhar de perto a regulamentação, que segue sendo detalhada.

Por Rodrigo Brustolin

Sócio-fundador do Grupo BRA 360. Lidera frentes de consultoria estratégica, planejamento tributário e governança para empresas em crescimento.

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Fonte: Portal Contábeis

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