Hoje, o Brasil enfrenta uma crise de confiança digital que vai muito além de golpes pontuais ou descuidos individuais, configurando um problema estrutural. Casos como o do “falso advogado” e o do “falso gerente de banco” revelam um fenômeno mais profundo: uma profissionalização dos criminosos, capazes de personalizar detalhadamente os golpes conforme seus alvos.
Essa habilidade é impulsionada pela exploração massiva de dados e por vulnerabilidades tecnológicas ainda pouco compreendidas por empresas e profissionais. Os golpes não surgem do acaso. Eles são o resultado de um ambiente em que as informações sensíveis circulam com relativa facilidade, muitas vezes de forma pública, fragmentada e mal protegida.
O Brasil é um dos países que mais concentram ataques cibernéticos no mundo, com 60 bilhões de tentativas de ataques registrados em 2023 e custo médio de violação de dados de US$1,36 milhão diante da média internacional de US$4,88 milhões, de acordo com dados da IBM. Em 2024, teve o terceiro maior aumento no custo decorrente de violação de dados, de 11,5%, atrás somente de Itália e Alemanha.
Para escritórios contábeis, departamentos financeiros e empresários, que operam diariamente com dados fiscais, bancários e jurídicos, o risco é especialmente elevado.
O golpe do falso advogado
No golpe do falso advogado, por exemplo, o contato costuma ocorrer logo após uma movimentação real num processo judicial. O criminoso conhece o número do processo, o nome das partes, o estágio da ação e até o valor envolvido.
Apresentando-se com segurança, ele usa linguagem jurídica adequada e solicita um pagamento urgente para “liberação de valores” ou “cumprimento de exigência judicial”. Em diversos casos recentes, o nível de precisão foi tão alto que levou tribunais e entidades de classe a emitir alertas formais sobre a prática.
Golpe do falso gerente de banco
Embora o golpe da falsa central bancária seja diferente da fraude advocatícia, ele segue um roteiro igualmente sofisticado. A vítima recebe uma ligação aparentemente legítima, com identificação visual compatível com a do banco. O interlocutor demonstra conhecimento prévio sobre a conta, o histórico de transações e até dados cadastrais.
A narrativa é de um tom de urgência: uma fraude está em andamento e ela exige ação imediata. Sob pressão, a vítima acaba realizando transferências, fornecendo códigos de autenticação ou validando operações que acabam por autorizar o desvio indevido de dinheiro.
O elemento central que conecta esses esquemas é a qualidade da informação utilizada. Diferentemente de muitos crimes virtuais, aqui não se trata apenas de dados vazados em grandes incidentes, mas de um mosaico construído a partir de fontes públicas.
Diários oficiais, registros empresariais, redes sociais profissionais e processos judiciais são algumas dessas origens lícitas, que podem ser combinadas com dados obtidos de forma ilícita.
Em situações mais graves, há indícios claros de comprometimento direto dos computadores ou celulares das vítimas. O uso de spyware (programas espiões) representa uma escalada nesse tipo de crime. Instalado por meio de anexos, links ou aplicativos aparentemente legítimos, esse tipo de programa malicioso permite o acesso contínuo a e-mails, mensagens, documentos, contatos e até padrões de comunicação.
Com isso, o criminoso não só “finge ser” alguém: ele replica com precisão a forma de falar, os horários de contato e o contexto profissional da vítima. A personificação deixa de ser genérica e passa a ser uma imitação virtual quase indistinguível da comunicação real.
Fraudes avançadas e o setor contábil
Para o setor contábil, o potencial de perdas é enorme. Escritórios de contabilidade concentram informações estratégicas de diversos clientes de perfis variados, funcionando como pontos críticos na cadeia de dados empresariais.
Um único computador comprometido pode expor informações fiscais, bancárias e societárias de muitas empresas, ampliando não apenas o dano financeiro, mas também o risco jurídico para o escritório.
Além disso, outro ativo ainda mais fundamental numa relação profissional pode ser abalada de forma irreversível: a confiança. Portanto, o problema não pode ser tratado apenas como falha individual ou falta de atenção.
Diagnóstico e solução de problemas de cibersegurança
Como dito antes, a vulnerabilidade é sistêmica: nela, combinam-se tecnologia, comportamento e excesso de exposição de dados. Assim, a resposta a essa situação propícia ao crime organizado digital também precisa ser estrutural.
Para a essencial proteção dos dispositivos usados no trabalho, existem soluções reconhecidamente eficazes. Encontrar a melhor VPN para o dia a dia ajudará a proteger comunicações, dentro e fora do ambiente corporativo, e reduzir o risco de interceptação de dados. Essa camada adicional de defesa pode ser somada ao uso de antivírus e a boas práticas, especialmente num contexto em que profissionais e colaboradores acessam sistemas sensíveis em redes externas.
Aliás, quando se fala em boas práticas, medidas como protocolos rígidos de verificação para pagamentos, segregação de funções, autenticação em múltiplos fatores e treinamentos recorrentes de equipes deixam de ser meras opções e passam a ser exigências básicas.
O avanço nos golpes de personificação no Brasil expõe o fato de que a digitalização dos negócios avançou mais rápido do que a maturidade em segurança da informação. Enquanto dados continuarem excessivamente acessíveis e mal geridos, criminosos seguirão explorando essas brechas com sofisticação crescente. A proteção de dados hoje não é apenas uma questão tecnológica, mas uma responsabilidade estratégica de contadores, empresários e profissionais de finanças.
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Perguntas frequentes
Como funciona o golpe do falso advogado e por que ele é tão convincente?
No golpe do falso advogado, o criminoso entra em contato logo após uma movimentação real em processo judicial, conhecendo o número do processo, as partes envolvidas, o estágio da ação e o valor em disputa. Com linguagem jurídica adequada, solicita pagamento urgente para ‘liberação de valores’ ou ‘cumprimento de exigência judicial’. O alto grau de precisão levou tribunais e entidades de classe a emitir alertas formais sobre a prática.
Quais são as fontes de informação que os criminosos usam para personalizar os golpes?
Os golpes são construídos a partir de um mosaico de fontes públicas e privadas: diários oficiais, registros empresariais, redes sociais profissionais e processos judiciais fornecem dados lícitos que são combinados com informações obtidas de forma ilícita. Em casos mais graves, há uso de spyware instalado por anexos ou links maliciosos, que permite acesso contínuo a e-mails, mensagens e documentos da vítima.
Por que escritórios de contabilidade são alvos especialmente vulneráveis a fraudes digitais?
Escritórios contábeis concentram informações estratégicas de múltiplos clientes, funcionando como pontos críticos na cadeia de dados empresariais. Um único computador comprometido pode expor informações fiscais, bancárias e societárias de diversas empresas simultaneamente, ampliando não apenas o dano financeiro mas também a responsabilidade do escritório perante seus clientes.
Qual é o volume de ataques cibernéticos que o Brasil enfrenta?
Segundo dados citados no post com base em informações da IBM, o Brasil registrou 60 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos em 2023, com custo médio de violação de dados de US$ 1,36 milhão. Em 2024, o país teve o terceiro maior aumento no custo decorrente de violação de dados, de 11,5%, ficando atrás apenas de Itália e Alemanha.
Como o spyware potencializa a personificação digital em golpes contra empresas?
O spyware, instalado por meio de anexos, links ou aplicativos aparentemente legítimos, permite acesso contínuo a e-mails, mensagens, documentos, contatos e padrões de comunicação da vítima. Com isso, o criminoso não apenas finge ser alguém: ele replica com precisão a forma de escrever, os horários de contato e o contexto profissional da vítima, tornando a imitação virtualmente indistinguível da comunicação real.
Por Rodrigo Brustolin
Sócio-fundador do Grupo BRA 360. Lidera frentes de consultoria estratégica, planejamento tributário e governança para empresas em crescimento.
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