O limite de faturamento do Microempreendedor Individual (MEI) pode finalmente ser reajustado. O governo estuda elevar o teto atual de R$ 81 mil por ano de forma gradual, com a proposta de chegar a R$ 100 mil em 2027 e a R$ 120 mil em 2028. A medida atende a uma demanda antiga de quem empreende na ponta e vê o atual limite, congelado há anos, ficar cada vez mais distante da realidade de custos e preços do país.
Como está a discussão
Há diferentes propostas em debate. No campo do Executivo, a ideia de um reajuste escalonado busca equilibrar o alívio para o pequeno negócio com o impacto fiscal e previdenciário. No Congresso, o tema avança por outro caminho: o Senado já aprovou uma proposta que eleva o teto para R$ 130 mil, enquanto parte dos deputados defende um valor ainda maior, de até R$ 145 mil. Os números variam, mas o sentido é o mesmo, ampliar o espaço de atuação do MEI antes que ele precise migrar para o Simples Nacional.
O chamado efeito barreira é um dos principais argumentos. Quando o microempreendedor ultrapassa os R$ 81 mil, ele sai do regime simplificado do MEI e passa a arcar com obrigações e custos significativamente maiores no Simples Nacional. Esse salto desestimula o crescimento e, em alguns casos, empurra parte do faturamento para a informalidade. Um teto mais alto suaviza essa transição e dá fôlego para o negócio amadurecer.
Vale lembrar que o limite atual está congelado desde 2018, enquanto a inflação acumulada no período corroeu de forma expressiva o poder de compra desse teto. Na prática, o microempreendedor de hoje pode vender o mesmo volume de produtos ou serviços de anos atrás e, ainda assim, estourar o limite apenas por causa do reajuste de preços. Por isso, boa parte das entidades que representam pequenos negócios defende não só a elevação do valor, mas também a criação de um mecanismo de correção automática, que evite novos congelamentos prolongados no futuro.
Quem é afetado
O Brasil tem hoje cerca de 16,75 milhões de microempreendedores individuais registrados. É um contingente que sustenta boa parte da atividade econômica de bairros, prestadores de serviço, comércio de pequeno porte e produtores autônomos. Para esse público, a atualização do teto representa a possibilidade de faturar mais sem sair imediatamente de um regime que oferece simplicidade, carga reduzida e acesso a benefícios previdenciários.
Além do limite de receita, a discussão envolve outros ajustes na figura do MEI. Entre eles, está o debate sobre a flexibilização do número de funcionários, hoje limitado a um, e sobre a forma de contribuição, que poderia ser revista para acompanhar faixas maiores de faturamento. Tudo isso compõe um pacote de modernização do regime que vem sendo costurado em paralelo à atualização do teto.
O outro lado da conta
A ampliação do limite não é simples do ponto de vista fiscal. Estudos apontam que a mudança teria impacto atuarial estimado em cerca de R$ 90 bilhões quando consideradas receitas e despesas previdenciárias futuras, já que o MEI recolhe uma contribuição reduzida ao INSS. As perdas anuais de arrecadação são estimadas entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões, com avaliações mais pessimistas que chegam a R$ 5 bilhões. Por isso o governo defende a elevação gradual e estuda, em contrapartida, rever as alíquotas de contribuição, que poderiam variar entre 8% e 12% do faturamento em faixas mais altas.
Esse equilíbrio entre estímulo ao empreendedorismo e sustentabilidade das contas públicas é o ponto central da negociação. Um teto generoso demais, sem ajuste de contribuição, pode comprometer o financiamento de benefícios. Um teto tímido perpetua o efeito barreira. A solução escalonada tenta encontrar um meio-termo entre essas pressões.
Há ainda o impacto sobre a arrecadação dos municípios e estados, que recebem parte dos tributos recolhidos pelo regime. Ampliar o teto significa, em alguns casos, postergar a entrada de empreendedores no Simples Nacional, onde a tributação é maior. Esse é um dos motivos pelos quais a proposta avança com cautela e em etapas, permitindo que os entes federativos avaliem o efeito real sobre suas receitas antes de cada novo aumento.
O que o microempreendedor deve fazer agora
Enquanto a proposta tramita, a orientação é de atenção e planejamento. Quem está próximo do limite atual precisa monitorar o faturamento mês a mês para não ser desenquadrado de surpresa, situação que gera cobranças retroativas e mudança de regime. Acompanhar a evolução das regras é igualmente importante, já que a definição do novo teto e da forma de contribuição muda diretamente o custo de operar o negócio.
- Controlar a receita acumulada nos últimos doze meses, e não apenas no ano corrente;
- Avaliar com a contabilidade o melhor momento para crescer ou migrar de regime;
- Organizar notas, recibos e despesas para sustentar o planejamento tributário;
- Reservar parte do caixa para a eventual mudança de enquadramento.
No Grupo BRA 360, ajudamos o pequeno empreendedor a transformar essa indefinição em estratégia. Mais do que esperar a aprovação do novo teto, o caminho é planejar o crescimento com previsibilidade, escolhendo o regime certo no momento certo e protegendo a saúde financeira do negócio em cada faixa de faturamento.
Perguntas frequentes
Qual é o novo teto de faturamento proposto para o MEI e quando pode entrar em vigor?
O governo estuda elevar o teto atual de R$ 81 mil anuais de forma gradual: R$ 100 mil em 2027 e R$ 120 mil em 2028. No Congresso, o Senado já aprovou proposta que eleva para R$ 130 mil, e parte dos deputados defende até R$ 145 mil. A aprovação e os valores finais dependem de negociação entre Executivo e Legislativo.
Por que o limite do MEI está defasado e o que é o efeito barreira?
O teto de R$ 81 mil está congelado desde 2018, enquanto a inflação corroeu o poder de compra desse valor. O efeito barreira ocorre quando o microempreendedor ultrapassa o limite e precisa migrar para o Simples Nacional, enfrentando obrigações e custos significativamente maiores. Isso desestimula o crescimento e pode empurrar parte do faturamento para a informalidade.
Quantos microempreendedores individuais existem no Brasil?
O Brasil conta com cerca de 16,75 milhões de MEIs registrados. Para esse público, a atualização do teto representa a possibilidade de faturar mais sem sair imediatamente de um regime que oferece simplicidade, carga reduzida e acesso a benefícios previdenciários.
Qual é o impacto fiscal estimado da elevação do teto do MEI para as contas públicas?
Estudos apontam impacto atuarial estimado em cerca de R$ 90 bilhões quando consideradas receitas e despesas previdenciárias futuras. As perdas anuais de arrecadação são estimadas entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões, com avaliações mais pessimistas chegando a R$ 5 bilhões. Por isso o governo avalia elevar gradualmente as alíquotas de contribuição, que poderiam variar entre 8% e 12% do faturamento.
Além do teto, o que mais está sendo debatido para modernizar o regime do MEI?
A discussão inclui a flexibilização do número de funcionários permitidos, hoje limitado a um, a revisão da forma de contribuição para acompanhar faixas maiores de faturamento e a criação de um mecanismo de correção automática do teto para evitar novos congelamentos prolongados no futuro. Tudo isso compõe um pacote mais amplo de modernização do regime.
Por Rodrigo Brustolin
Sócio-fundador do Grupo BRA 360. Lidera frentes de consultoria estratégica, planejamento tributário e governança para empresas em crescimento.
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Fonte: Portal Contábeis