O split payment é uma das mudanças mais sensíveis da Reforma Tributária para as empresas do Simples Nacional. O modelo recolhe o tributo no exato momento do pagamento da venda, e começa a valer a partir de 2027. Para os 20 milhões de micro e pequenas empresas do país, que respondem por cerca de 99% dos negócios e por boa parte dos empregos, o impacto no caixa pede atenção desde já.
Entender o mecanismo do split payment não é apenas uma questão técnica para contadores. É uma decisão de gestão financeira que começa a ser tomada agora, com base no calendário da Reforma e nas características do seu negócio. Quem se prepara em 2026, quando as alíquotas ainda são simbólicas, chega a 2027 com processos testados e sem sustos no fluxo de caixa.
O fim do tax float
Hoje, muitas empresas usam o valor total recebido em uma venda para financiar a operação do dia a dia e pagam os tributos somente no mês seguinte. Esse fôlego de caixa, conhecido como tax float, é na prática uma forma de capital de giro temporário financiado pelo tributo que ainda não foi repassado ao governo.
Com o split payment, esse mecanismo deixa de existir. No momento em que o cliente paga pela compra, a parcela correspondente ao tributo é retida diretamente pelo sistema de pagamento e repassada ao fisco. A empresa passa a receber apenas o valor líquido da venda, sem o componente tributário.
Para empresas que operam com margens apertadas e dependem do tax float para cobrir despesas operacionais entre o recebimento da venda e o vencimento dos fornecedores, a mudança exige revisão de prazos de pagamento, de políticas de crédito a clientes e de limites de cheque especial ou linha de crédito rotativo. A adaptação não é impossível, mas precisa ser planejada com antecedência.
A decisão de regime em setembro
Diferente do calendário tradicional, em que a escolha de regime tributário costuma ocorrer em janeiro, a empresa precisa formalizar a opção de enquadramento entre 1 e 30 de setembro de 2026. É uma janela curta e estratégica.
A decisão de permanecer no Simples Nacional ou migrar para outro regime precisa considerar múltiplas variáveis: o perfil dos clientes (pessoa física ou jurídica), o volume de operações com crédito de IBS e CBS, a cadeia de fornecedores, a margem atual e a projeção de crescimento. Nenhuma dessas análises pode ser feita de forma genérica. Cada empresa tem uma realidade e um ponto de equilíbrio diferente.
Essa análise deve começar bem antes de setembro. Com quatro meses de antecedência, é possível simular cenários, identificar o impacto financeiro de cada opção e chegar ao prazo de decisão com informação suficiente para escolher com segurança.
O risco do crédito para o cliente
Há um ponto que pode definir a competitividade de quem vende para outras empresas: a geração de crédito de IBS e CBS. No novo sistema, o comprador pode abater os tributos pagos na aquisição dos tributos devidos na própria venda. Esse mecanismo de crédito é um dos pilares da racionalidade econômica da Reforma.
Se o cliente precisa do crédito de IBS e CBS gerado na compra para abater o tributo da própria venda, mas o fornecedor do Simples não destaca e recolhe esses tributos separadamente, o crédito não é gerado para o comprador. Na prática, isso significa que comprar de uma empresa do Simples pode ficar mais caro do que comprar de um concorrente do regime normal que gera o crédito.
Esse efeito competitivo é especialmente relevante para empresas que vendem para outras empresas (B2B). Se o seu cliente tem uma contabilidade estruturada e gerencia créditos tributários, ele vai comparar o custo efetivo de comprar de você versus comprar de um concorrente que está no Lucro Presumido ou no Lucro Real. Em muitos casos, a diferença de crédito pode superar a vantagem de preço do Simples.
Alíquotas de 2026 e a janela de adaptação
Em 2026, as alíquotas do novo sistema ainda são simbólicas: CBS de 0,9% e IBS de 0,1%. Esse valor reduzido é deliberadamente planejado para criar uma fase de adaptação operacional sem impacto financeiro significativo.
Essa janela é precisamente o momento certo para testar processos, ajustar sistemas, revisar contratos com clientes e fornecedores, e treinar as equipes financeira e contábil. Quando as alíquotas subirem gradualmente ao longo do período de transição, a empresa que já rodou o ciclo completo de apuração, pagamento e gestão de créditos vai operar sem surpresas.
O que considerar agora
A lista de ações práticas que devem acontecer antes de setembro de 2026 é clara:
- Mapear o perfil dos clientes e a relevância do crédito tributário para cada um;
- Simular o impacto do fim do tax float no fluxo de caixa operacional;
- Comparar o custo-benefício do Simples Nacional frente ao Lucro Presumido considerando o crédito de IBS e CBS;
- Revisar contratos de fornecimento que possam ser afetados pela mudança de regime;
- Estruturar a integração com o Portal Nacional de Tributação sobre o Consumo.
A consultoria da BRA 360 ajuda a comparar os caminhos possíveis para que a sua empresa decida com base em números concretos. Nossa equipe integra as dimensões contábil, de consultoria financeira, de capital e jurídica para dar uma visão completa sobre o impacto da Reforma no seu negócio, cobrindo tanto a adequação tributária quanto as implicações contratuais e de financiamento.
Fonte: Contabilizei