CNI: 32% das indústrias ouvidas preveem mais dívida

Gráfico de linhas ascendentes sobre fábrica representando o aumento do endividamento bancário na indústria

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou em setembro de 2026 a terceira edição da Consulta Empresarial sobre Juros, Crédito e Custos Financeiros: 32% das indústrias ouvidas preveem aumento do saldo da dívida bancária no próximo trimestre, abaixo dos 45% registrados na edição de junho. O dado ainda indica crédito caro e usado para fechar o ciclo de caixa das empresas.

Como foi feita a pesquisa

A consulta ouviu 179 indústrias de 28 setores em 21 unidades da federação, com coleta entre 18 e 28 de agosto de 2026. É uma amostra reduzida diante do universo da indústria brasileira: os percentuais ajudam a captar tendência e expectativa das empresas consultadas e devem ser lidos com essa ressalva.

Onde a pressão de caixa mais aparece

A necessidade de financiamento deve crescer, segundo as empresas ouvidas, em três frentes: contas a pagar (56% das respostas), estoques (50%) e contas a receber (49%). Ao mesmo tempo, o custo desse financiamento também deve subir: 46% esperam juros maiores no financiamento de contas a receber e apenas 7% esperam redução; 50% preveem custo maior para financiar estoque e 42% para financiar contas a pagar. Na prática, a indústria relata precisar de mais dinheiro para tocar o mesmo volume de operação, e pagando mais caro por esse dinheiro. Para o dono de empresa, esse conjunto de respostas descreve um caixa mais apertado mesmo sem crescimento nas vendas, porque o custo de sustentar estoque, fornecedor e cliente sobe ao mesmo tempo em que o crédito para cobrir essa diferença fica mais caro.

O efeito nas margens e nos preços

Mais da metade das indústrias consultadas (57%) espera queda da margem líquida, 14% projetam forte queda e 19% esperam melhora. Mesmo assim, a maior parte não pretende repassar o custo ao preço: a intenção de aumentar preços caiu para 35%, ante 51% em levantamento anterior, e 53% das empresas pretendem manter os preços como estão. Para a analista da CNI Maria Virgínia Colusso, a principal mensagem da consulta é que o efeito dos juros vai muito além de uma decisão de investir ou não. O gerente de Política Econômica da CNI, Kleber Castro, resume o cenário como um trimestre de maior demanda por recursos, crédito mais caro e margens comprimidas.

O peso do ciclo financeiro na necessidade de crédito

A necessidade de crédito de uma empresa depende também do tempo entre pagar o fornecedor, vender o estoque e receber do cliente. Esse intervalo, chamado de ciclo financeiro, é o que a pesquisa da CNI está descrevendo quando mostra pressão simultânea em contas a pagar, estoque e contas a receber: quanto mais longo o ciclo, maior a fatia da operação que precisa ser financiada com dinheiro de terceiros enquanto o caixa não entra. Empresas com ciclo financeiro mais longo, seja porque compram insumo com antecedência, seja porque vendem a prazo mais longo para o cliente final, sentem o efeito dos juros altos de forma mais direta, ainda que a queda de margem apareça no resultado de qualquer uma delas.

Por que os números são de antes do corte da Selic

A coleta da pesquisa terminou em 28 de agosto de 2026, quase três semanas antes de o Copom cortar a Selic para 13,75%, em 16 de setembro. Isso significa que o retrato de crédito mais caro e margem mais apertada reflete o custo de capital de antes do corte. A tendência de juros mais baixos ainda deve levar tempo para aparecer nas taxas de contratos novos e, principalmente, nos contratos antigos, que continuam com a taxa combinada no momento da assinatura.

O que fazer com o capital de giro agora

Antes de tomar dívida bancária para cobrir o ciclo de caixa, faz sentido revisar o que está dentro de casa: prazo médio de recebimento de clientes, giro de estoque e custo da antecipação de recebíveis, comparado ao de um empréstimo novo. Vale também revisar contratos de crédito já assinados, separando o que está com taxa prefixada do que está com taxa pós-fixada, porque só o segundo grupo tende a sentir alívio automático com o início da queda da Selic. Renegociar prazo de pagamento com fornecedores estratégicos, comparar o custo de diferentes fontes de crédito de giro, como desconto de duplicatas, antecipação de cartão e linhas com garantia real, e reavaliar o nível de estoque parado também ajudam a reduzir a dependência de dívida nova enquanto os juros ainda estão altos. Como já mostrado em outra análise sobre o impacto do split payment no capital de giro, o desenho do fluxo de caixa da empresa vai continuar mudando com a reforma tributária, e vale reorganizar a estrutura de financiamento antes que o cenário fique ainda mais apertado.

Empresas que estão renegociando linhas de crédito, avaliando alongar dívida ou organizando o capital de giro para os próximos trimestres podem contar com a equipe de Capital do Grupo BRA 360 para simular cenários, comparar o custo de cada fonte de recurso e montar um plano de reorganização financeira compatível com o ritmo de queda esperado da Selic, entre os serviços do grupo.

Fonte: CBIC

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